Empacotando o Passado.
Foto: Autor Desconhecido

Foto: Desconhecido.

Um dia acordei disposto. Quer dizer, eu sabia que eu estava animado e com vontade de tomar qualquer tipo de atitude que pudesse deixar a minha vida melhor.

Dei uma boa olhada em minha volta, pelo meu quarto bagunçado, que beirava o limite para não entrar em um daqueles programas sobre acumuladores.

Era isso, eu estava disposto a mudar e causar mudanças.

Comecei a esvaziar o meu velho guarda roupa, que aliais havia herdado dos meus irmãos, com algumas portas e gavetas quebras. Algumas aliais arrancadas por mim.

Era rustico – eu dizia – Agora só passa de um móvel velho.

Comecei a empilhar as coisas, separando-as por categorias: Necessárias, irrelevantes e dispensáveis.

Pilhas de roupas foram se formando, muitas ali só eram usadas raramente em casa, e por algum motivo não me desfazia delas.

Entrar naquele guarda roupa foi equivalente a entrar em um passado, o passado de alguém que eu insistia em tentar manter vivo.

Eu achei por ali pequenos portais, a maioria em forma de cartas, ou pequenos objetos atolados de nostalgia. Rascunhos de canções com melodias perdidas, promessas de “Nunca abandonar”, bilhetes de parques, filmes. Tudo que remetia a uma época boa de despreocupações.

Engraçado, anos atrás eu fiz essa mesma seleção, e a pilha de dispensáveis era bem menor. E acho que os elementos das necessárias pularam para irrelevantes.

Mas aquilo não me incomodava. Pois é dessa forma como conduzimos nossas vidas, levamos conosco aquilo que serviu de base para nos construir. Enquanto algumas coisas se mantêm congeladas em um tempo espaço, onde ainda recebem juras de “Nunca abandonar”.

Após passar uma semana inteira praticando a arte do desapego, pude notar o pequeno vazio que se instalou no meio daquele quarto. E não estava vazio por ter perdido alguma coisa, e sim porque estava à espera de alguma coisa, de novas lembranças e novos portais.

E.Mateus

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