A cena já é famosa e vive no imaginário popular. A criatura horrenda de dois metros de altura, pele esverdeada e com aparência de musgo, e aqueles característicos dois parafusos em seu pescoço abre os olhos depois de receber o raio da vida.  Esse símbolo absoluto do cinema de horror nasce nas mãos da autora  Mary Shelley em 1831, porém, essa versão que ainda habita as mentes dos fãs dos filmes de horror foi interpretada por Boris Karloff, em 1931 (100 anos depois da publicação da primeira edição). Mais interessante ainda é como criador e criatura foram retratados em períodos ainda mais recentes. Ora o monstro aparece mais fiel a sua forma descrita no livro, ora mais glamourizado.

Agora o já consagrado monstro (ao lado de alguns como o lobisomem, Drácula, A múmia) é um ícone do terror. Por isso, decidimos mostrar algumas obras em que o monstrão e seu sofrido criador aparecem, além de ler o livro original, e compreender como ele ainda é tão fascinante mesmo para uma audiência tão imersa no mundo da ciência.

Frankenstein – Mary Shelley

Foto: Gustavo Sivi

É interessante olharmos para o romance de Mary Shelley atualmente. Em 2016, em oposição a 1816 -quando ela começa a trabalhar com o seu romance-, a ciência como um todo passou por grandes mudanças. Muito do que era somente sonho para Victor, ou ficção científica para Mary, se tornou realidade, como a reanimação de tecidos mortos, ou até mesmo criação de alguma células em laboratório. Ainda assim, o grande objetivo, criar e animar um ser humano completo permanece sendo uma impossibilidade. Então porque será que continuamos a ler, refilmar e a pensar sobre Victor Frankenstein e sua criatura?

Pra qualquer um que decida se aventurar por Frankenstein, cabe o aviso: o livro não assusta como um filme de terror comum, mas ele provoca no seu leitor uma multiplicidade de outras sensações, algumas tão próximas do medo. Angústia, desespero, desconforto, até um certo nojo. Como o livro passa a maior parte do tempo com Victor, e este representa uma forte intensidade emocional, o leitor consegue sentir tudo isso pelos olhos do jovem doutor Frankenstein.

Aqui cabe um momento para falar sobre a história do livro; Mary Shelley nos mostra a família Frankenstein, nobres de alto calão na Suíça; primeiro o patriarca da família e sua esposa, que falece logo no início da narrativa, então o sucessores, Victor Frankenstein e a jovem Elizabeth, criada junto com Victor como uma irmã. Victor decide se tornar um médico e se muda para uma cidade universitária, lá ele alimenta uma paixão pelos lados mais obscuros da ciência, como a reanimação de tecidos mortos, o que o leva a criar o seu monstro. A partir desse momento pivotal na história do gênero de horror, a autora leva o seu leitor para um mergulho na conturbada relação entre criador e criatura.

Victor representa toda a emoção humana. O criador sempre é compelido por suas paixões –  ele sente com intensidade cada perda, cada reviravolta e cada ação nefasta de sua criatura. O grande triunfo de Mary Shelley ao criar esse personagem está em mostrar como a espécie humana é volátil em suas decisões. Victor frequentemente volta atrás e se arrepende de diversas decisões, porém as vezes com consequências nocivas..

O monstro aparece então como a forma da racionalidade bruta. Diferentemente de Victor, ele não sente, mas pensa, raciocina. Do momento em que Mary Shelley cede a palavra à criatura (SIM isso acontece e é incrível), os papéis se invertem, o monstro passa a mover a ação e a definir os rumos da história. Vítima da crueldade humana, os interesses do monstro não são dos melhores, a sua busca é muito marcada por uma forte angústia. A promessa que ele faz é de que seu criador passará por sofrimentos semelhantes.

A dupla – que por vezes parece o mesmo organismo em conflito- então se assemelha a um pêndulo, que oscila entre a crueldade da natureza, o raciocínio lógico e a busca por ideais superiores e sensações transcendentais. Este pêndulo de Mary Shelley capta todo pensamento científico de sua época, toda a formação das disciplinas fundamentais para a ciência moderna, mas antes de tudo ela nos mostra a complexidade das relações humanas.. Assim como o Prometeu clássico dos gregos, que rouba a chama do Olimpo, o Prometeu moderno traz aos homens o conhecimento científico, mas também nos avisa de seus perigos.

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