“Como procurar um cachorro perdido” é na verdade um belo esboço de quão complexa pode ser a mente humana, diante de suas limitações, questionamentos e aversão ao desconhecido. E muitos desses conflitos que se mostram claros para o leitor ao longo da história, passam de maneira quase imperceptíveis diante de Rosa, uma garotinha de quase doze anos que carrega a ingenuidade de uma criança intensificada por uma limitação.

Foto: E.Mateus

Rosa mora seu com seu pai, Wesley, e sua amada cachorrinha Poça, que por diversos momentos mostra-se ser uma das maiores referencias de carinho na vida da menina. Ela não possui a presença da mãe, apenas algumas lembranças guardadas. E fora o pai, seu único parente mais próximo é seu tio Weldon, que por muitas vezes assume todas as rédeas.

Na escola, ela precisa de atenção especial, por isso é quase sempre acompanhada pela senhora Leibler, que a orienta e ajuda na interação com seus colegas de classe. Rosa é diagnosticada com Autismo de Auto Funcionamento, ou seja, ela se concentra apenas em assuntos que a fascinam – por conta disso se torna uma expert em cada um deles-, sente a urgência de jamais quebrar uma rotina ou qualquer regra, e possui dificuldades para se socializar.

Foto: E.Mateus

Como o título do livro prevê, o grande clímax deste se desenvolve a partir do desaparecimento de Poça, e isso ocorre em circunstâncias conturbadas.

Rosa não mede esforços para tentar trazer sua cachorra de volta à casa, criando planos complexos e muito bem elaborados. E por várias vezes ela surpreende a todos com suas atitudes e disposição em se colocar no lugar dos outros – algo que não é tão simples assim para ela.

Porém isso está longe de ser o único acontecimento relevante nesta historia.

A forma como todos os olhares sobre a garotinha são abordados foi algo que me surpreendeu muito. Por exemplo : vemos de um lado um pai aflito, despreparado para certas situações, em contraste com seu irmão (tio) mais paciente e disposto a embarcar no mundo particular de Rosa.

Foto: E.Mateus

O cuidado que a autora Ann M. Martin teve em construir esta história fica evidente por diversas vezes. Ela consegue transmitir em um livro com pouco mais de 200 páginas conflitos vívidos, de forma que chega ser possível imaginar que tais pessoas estejam realmente passando por tudo aquilo, ou que elas até mesmo de fato existiram.

O trabalho feito pela editora plataforma 21 em cima da tradução sobre as peculiaridades de Rosa também merecem destaque. A leitura transcorre de maneira fluida e descontraída – fácil de ser devorado.


Em memória de meu valente amigo, Fred
2004 – 2016.

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