Eu poderia resumir “Aristóteles e Dante descobrem os Segredos do Universo” em uma história sobre o silêncio, e suas incansáveis interpretações. Mas o silêncio carregado por cada personagem esconde muito mais do que a simples vontade de não falar. É o resultado das dores guardadas, dos segredos mantidos, dos medos encarcerados e dos muitos sentimentos desconhecidos.

Principalmente para Ari, o silêncio sempre foi o refúgio para incessantes questões que cercavam a sua mente.

O problema da minha vida é que ela tinha sido ideia de outra pessoa.”

Como se espera, o livro nos apresenta Aristóteles – um jovem que inicialmente aparece aos 15 anos. Ari, como gosta de ser chamado, não possui qualquer amigo. Ele simplesmente não se encaixa nas conversas dos outros garotos, tem um temperamento forte que faz com que ele não recue de uma briga, mas acima de tudo é extremamente reservado.

O seu relacionamento com os pais é conflitante, no entanto na maioria das vezes esses conflitos ocorrem dentro da cabeça de Ari. Seu pai é visto por ele como um estranho, eles moram na mesma casa, porém seus diálogos são sempre curtos e básicos. Ari sabe que seu pai carrega consigo pensamentos pesados de um passado na guerra, e não lida bem com o fato dele escolher escondê-los.

Por outro lado, sua mãe lhe parece mais comunicativa e atenciosa. Ari sabe que tudo isso se perde logo que o nome de seu irmão é mencionado, e que não querem que ele seja como tal. E isso também o incomoda.

– E Dante, um garoto radiante e com uma grande paixão pelo mundo. Os dois são grandes opostos. Dante não possui travas para falar, sentir e amar. A relação com seus pais é carregada de carinhos, afetos e cumplicidade – O que desperta a admiração de Ari -, no entanto ambos vivem sob as expectativas de seus pais. E por seus próprios motivos Dante também acaba não tendo muitos amigos.

Eu não entendia como alguém podia viver em um mundo mau e não absorver um pouco dessa maldade? Como um cara era capaz de viver sem um pouco de maldade?

Os dois se conhecem em uma tarde de verão em uma piscina pública, e a amizade é quase que instantânea. – O autor resumiu de certa forma seus primeiros contatos, mostrando não como passaram a ser amigos, mas sim os porquês.

Ao ponto que a história se desenvolve é possível notar o quanto um passa a influenciar o outro. Os personagens amadurecem de forma gradativa e sutil. Se transformam sem deixar de lado suas essências.

Talvez a vida fosse mesmo só uma série de fases – uma depois da outra.

Por ser um Y.A. é compreensível que eles passem por todo aquele processo de descobertas e questionamentos. O livro acompanha por um longo período as primeiras experiências, a autoaceitação, os questionamentos, raivas, tristezas e medos pelos quais passam todos os adolescentes.

O livro também dá grande destaque as relações familiares. Levantando questionamentos sobre “até que ponto conhecemos as histórias da nossa própria família” e “como entender os problemas dos outros pode afetar a nós mesmo”.

Pode ser que cada um ame de um jeito diferente. Talvez seja isso que importa.”

O livro me fez lembrar de que meus pais nem sempre foram “pais” e que não devo esperar que eles sejam fortes e destemidos o tempo todo pelo simples fato de não serem mais jovens. De certa forma, todos carregamos alguma coisa do passado.

Eu sabia que já não era criança. Mas ainda me sentia uma. Mais ou menos. Comecei a sentir outras coisas. Coisas de homem, acho. A solidão dos homens é maior que a das crianças.”

A escrita de Benjamin Alire Sáenz é leve, jovem e compreensível.O autor também faz um bom desenvolvimento do olhar de uma família latina-americana (mexicana) vivendo alguns de seus costumes fora do país. Além da vivência nos anos 80.

“Ser cuidadoso com as pessoas e as palavras era algo belo e raro.

O título para este livro não poderia ser mais apropriado, se trata realmente sobre descobertas do universo – do nosso e dos outros.

Algumas coisas como a repetição de situações em que o Ari se encontrava e seu negativismo constante, me incomodaram um pouco durante a leitura. Lógico que tudo isso ganha uma boa explicação durante a história.

Com tudo a amizade de Ari e Dante é linda, eles não precisam ser seres idênticos para se complementarem. Essa forte ligação acaba se transformando em um amor puro e sincero, que une suas famílias, rompe os seus silêncios e nos mostra o quão bom é não guardar sentimentos.

Apesar dos elementos, essa história não chega a ser exatamente sobre uma relação amorosa. É sim uma história sobre o silêncio, mas também sobre amizade, lealdade, garra, descobertas, crescimento…Eu também poderia resumir em : Uma linda história sobre dois garotos que salvaram um ao outro.

-Eu desisti deles. Você Salvou minha vida.
– Eu já disse que não fiz de propósito.

Aristóteles e Dante descobrem os Segredos do Universo,
de Benjamin Alire Sáenz, 2014.
Contém 392 páginas.
Publicado no Brasil pela Editora Seguinte.

Abraços.

COMENTÁRIOS

Não existem comentários

DEIXE SEU COMENTÁRIO