Quando chega dezembro e o clima natalino começa a se instalar o melhor acompanhamento pra ele é uma boa história. A história em questão é o secular e imortal “Conto de natal” de Charles Dickens.

Creio que este livro seja imbatível em termos de adaptações para cinema, tv, quadrinhos, enfim tudo que for possível, fato é que de Peanuts a Homer Simpson uma diversidade de personagens já vestiram as botas do ranzinza Ebenezer Scrooge.

Porem a impressão que se tem é que muito pouco se tem visto do original. A história vive em nossas mentes, mas as palavras de Dickens se perderam, o que é grave pois Dickens sabia como poucos manipular as palavras. Mesmo em uma história tão curta quanto Conto de natal, o autor brinca com nossas expectativas se utilizando de formas diferentes de literatura, enquanto desfila diante de nós os 3 imponentes fantasmas.

Ebenezer Scrooge tem a alma fria, odeia caridade, odeia o natal, odeia felicidade. Scrooge só se importa com seu dinheiro e suas finanças. É interessante como isso altera sua aparência física.

“Scrooge era um tremendo pão duro!Um velho sovina, avarento, mesquinho, unha de fome e ganancioso! Duro e áspero como uma pedra de amolar, não era possível arrancar dele a menor faísca de generosidade. Era solitário e fechado como uma ostra. A sua frieza congelou seu rosto e encompridou seu nariz e sua bochechas e endureceu seus olhos vermelhos…”

O contador perdeu seu sócio há sete anos atrás, justamente no natal. E no natal em questão o fantasma dele reaparece e anuncia para Scrooge as três visitas: Os fantasmas dos natais passado, presente e futuro.

O PRIMEIRO FANTASMA – Os Natais passado 

O primeiro encontro de Scrooge é com o fantasma dos natais passados. Ele leva o velho ranzinza em uma viagem ao tempo, acompanhando os natais que marcaram o crescimento e amadurecimento de Scrooge.

É interessante como as descrições de Dickens para a figura de Scrooge contrastam com o atual, os cenários são de natais solitários e sóbrios, ou felizes e descontraídos, ou até mesmo triste. Um a um essas sombras passam por Scrooge que vê sua opiniões mudando.

A riqueza descritiva de Dickens faz parecer que estamos diante de uma peça, tal qual é o detalhe e o carinho com as emoções do velho protagonista.

O SEGUNDO FANTASMA – O Natal presente 

O fantasma do natal presente chega ao encontro de Scrooge de forma diferente. Ele da ao velho a visão de fartura e bonança com uma lareira acesa e quente e uma mesa cheia de alimentos dos mais variados, principalmente carne. É legal que se repare como Dickens joga com oposições, colocando o fantasma para encher a casa do que Scrooge sempre a suprimiu, fogo e comida.

Além disso, o fantasma o leva para uma viagem pelas ruas daquela mesma Londres de onde o velho sairá, porém com um destino específico: a casa do único empregado de Scrooge.

Na casa, o velho acompanha a comilança e a cantoria de uma família que era grande, porém unida e apesar de mais pobres sabiam celebrar a festividade.

Creio que cabe um parênteses aqui, durante o século de Dickens, a Inglaterra não possuía leis trabalhistas, ou proteção ao trabalhador, logo as classes mais pobres eram assoladas por pobreza extrema. Muito diferente dos atuais cenários de fartura na mesma Inglaterra. Na cena que acompanhamos com o velho, o principal ingrediente daquele natal é nada mais que um frango assado.
Em outras passagens Dickens enfatiza a oposição entre os modos de vida e principalmente de comemorar o natal.

Os pobres cantam e dançam pelas ruas, comem algumas poucas comidas que possuíam e principalmente bebem. Os ricos se dão ao luxo de contratar exércitos de cozinheiros para organizar suas festas cheias de pujança. É interessante ver a crítica social que se delineia na prosa de Dickens.

 O TERCEIRO FANTASMA – Os natais futuros

Esse ultimo é o mais assustador. É o único capaz de gerar medo no velho Scrooge, é também o mais estranho e misterioso. Diferente de seu irmão dos natais passados, que não tem forma única mas muitas, ele não tem forma alguma sendo Scrooge incapaz de defini-lo. O fantasma é completamente coberto por um pano preto que encobre toda a sua forma, além disso ele é completamente mudo.

É interessante notar essa forma física dos fantasmas e como ela dialoga com os tempos que representam. O primeiro é velho e jovem, tem mil pernas e só tem duas, enfim múltiplas formas; o segundo enorme, imponente é o de forma mais definida, ele apresenta a Scrooge as infinitas possibilidades do agora e por fim, o temeroso amanhã, que de acordo com o próprio Scrooge, é o único capaz de assusta-lo verdadeiramente.

A viagem dos dois leva Scrooge para uma cena onde alguns cavalheiros distintos falam de uma morte, a do nosso protagonista. O fantasma o leva por diversos cenários todos unidos por uma idéia, qual será a herança que Scrooge deixará para o mundo, desde a herança material; seus bens e escritório até a herança sentimental; o que será do funcionário de Scrooge após a morte dele?

Isso é a gota D’água para o velho. Ele acorda de volta ao mundo real uma pessoa nova.
O prólogo é interessante e nele nós vemos Scrooge refazendo seus passos, se tornando menos avarento e valorizando aqueles ao seu redor. Em suma, ele teve de rever sua vida para começar a aproveita-lá.

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Um clássico como esse é imortal. Ainda temos por aí muitos Scrooges, presos aos bens materiais, presos a um futuro que nunca chegará, por isso a cada natal é importante lembrarmos da história de Dickens. Tal história tem sua força justamente na sua capacidade de provocar mudanças e talvez dai possamos entender a atração e as inúmeras adaptações por esse conto de natal.

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